CUMPLICIDADE DIGITAL - Aplicativos sem segurança viraram trampolins de marginalidade para crimes como roubo de carro
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Fui vítima de um crime digital: meu carro foi roubado por um golpe bem arquitetado e que contou com a decisiva falta de segurança (ou omissão?) de aplicativos como OLX, Facebook Marketplace, WhatsApp e Banco Inter.

Como isto aconteceu? Leia a seguir o roteiro criminoso de doze passos:

  1. Anunciei o automóvel de minha mulher, com foto e detalhes, no aplicativo OLX por R$25 mil. (O preço de mercado do veículo pela tabela FIPE é de R$27 mil).
  2. Nos dez dias seguintes inúmeros interessados entram em contato através do OLX. Um deles pede o celular e nos liga pelo WhatsApp. Apresenta-se como Jhoel. Ele está lá no aplicativo, com foto, telefone e tudo. Quer comprar o veículo para um funcionário de sua empresa.
  3. Eliminando de propósito o nosso contato, Jhoel oferece o mesmo veículo no Facebook Marketplace por um preço bem inferior, R$ 22 mil, o que só descobrimos mais tarde
  4. O anúncio de Jhoel no Facebook Marketplace atrai um casal idoso. Eles pedem a ele, sempre via WhatsApp, para ver fisicamente o carro. Isto ocorre no dia seguinte, mas o contato sempre virtual continua sendo apenas via Jhoel.
  5. Jhoel nos liga e explica que o casal quer comprar o carro, mas está inseguro na aquisição. Segundo ele, para acalmá-los, em se tratando de idosos, afirmou sermos primos.
  6. De forma digital Jhoel intermedia o encontro em um posto de vistoria seguido de cartório. No cartório, nós e o casal (sem Jhoel) aguardamos por horas a confirmação da transferência da propriedade e pagamento para completar a transação.
  7. Passa-se o tempo. Forma-se intensa tensão no cartório, e que força a uma urgente solução. Há desconfiança mútua: quem vem primeiro, o pagamento virtual ou assinatura presencial do DUT?
  8. Ocorre então um engenhoso encontro de contas, tirando proveito das conversas em separado pelo WhatsApp de Jhoel tanto dele com  comprador como com vendedor. Sem nosso conhecimento, houve antes uma negociação direta entre Joel e casal, ainda por WhatsApp, em que ele concordou em reduzir o preço para apenas R$18 mil. Este valor é pago então via PIX para o Banco Inter em nome de outra pessoa, que Jhoel afirmou para o casal ser seu filho.
  9. Para explicar a diferença do preço, Jhoel alega ao casal que nos deve R$ 7 mil, e que fará por TED o acerto direto conosco para alcançar o total de R$ 25 mil. Para nós a explicação é parecida: o pagamento ocorrerá por TED de R$ 25 mil, já que o casal deve a ele R$ 7 mil.
  10. Enfim chega pelo nosso WhatsApp uma cópia do TED de Jhoel via Banco do Brasil no valor de R$ 25 mil. Parece tudo correto: beneficiário, valor, data, horário, nome do gerente, código da transação. Esperamos minutos para ver se o valor aparece em conta.
  11. Diante da pressão de tempo, depois de cinco horas de transações, achamos que a compensação do TED pode demorar, e por isto liberamos os compradores. O casal vai embora feliz da vida com a excelente aquisição do carro em excelente estado e por valor tão baixo. O TED jamais caiu em conta. É falsificado, e depois apuramos que pertence a uma agência do Banco do Brasil de outra cidade do país.
  12. O golpe está dado a partir do pagamento do PIX feito pelo casal para o Jhoel. Ficamos sem dinheiro e sem carro. O WhatsApp de Jhoel não atende mais. Tampouco funcionam as contas da OLX, Facebook Marketplace e Banco Inter, criadas por meios digitais com base em telefones, nomes e CPFs falsificados ou roubados. Isto sem falar no TED e PIX, que se prestam a virar veículos de transações desonestas. Não há como verificar a autenticidade do gerador.
GOLPES SEM RISCO – Os marginais festejam os aplicativos que viabilizam ações criminosas sem precisar presença pessoal.
E AGORA?

Moral da história: por conta da digitalização em massa, não existe para o cidadão qualquer controle competente para garantir a idoneidade, ou segurança dos usuários contra crimes desta natureza. Enquanto isto não ocorre, é preciso pensar duas vezes ao usar aplicativos como OLX, Facebook Marketplace ou bancos digitais como o Inter. Mesmo o Banco do Brasil não tem como assegurar que seus documentos sofrem adulterações como a que ocorreu. Como classificou um agente de segurança ao ouvir nosso caso, estes recursos se transformaram em “trampolins da marginalidade”.

No dia seguinte entramos em contato com o casal, que existe de verdade. Só que eles lavam as mãos. Alegam que agora o carro é legalmente deles.

Registramos o caso na Polícia, quando soubemos que não há praticamente chances de recuperar o dinheiro.

Talvez você esteja se perguntando o que o caso tem a ver com Turismo. A resposta é clara. Se no Brasil crimes físicos e digitais ocorrem com tanta frequência e sem repressão, qual turista vai querer se arriscar a visitar o país?

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