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Para um bom profissional, não existe situação mais complexa que trabalhar para um chefe sem a mínima ideia do ofício. Pior ainda é quando, sem noção e incompetente, dá ordens que andam na contramão da funcionalidade e desafiam o bom senso. Como perversa lente de aumento, no serviço público estes casos se multiplicam ao infinito.

 Nenhum setor do governo federal sofre mais da Síndrome do Ministro-Que-Cai-de-Paraquedas que o Turismo. Para satisfazer interesses de acomodação política, a autarquia paga um preço altíssimo ao ganhar no Brasil o status de Ministério. Nada mais equivocado. Na maioria dos países onde o turismo se desenvolveu, o setor é representado por uma secretaria importante atrelada ao que é: Indústria e Comércio.

 O Ministério do Turismo é tratado no Brasil como cachorro vira-lata sem dono. Depende da boa vontade de algum político sem melhores opções a curto prazo para ser adotado. Mas que na primeira oportunidade ele dá um chute em seu rabo, e o devolve para a Rua da Amargura, Sem Número. 

Por alguns momentos coloque-se no lugar de um funcionário público que trabalha para o turismo brasileiro. Vamos chamá-lo de Rolando Boaventura. Interessado em desenvolver o setor, convencido do potencial do país e sua importância econômica, ele decidiu dedicar sua carreira ao assunto. Para isto prepara-se com afinco tanto nos estudos acadêmicos, como em experiência profissional. Sem “empurrão” oficial ou filiação partidária, é aprovado através de concurso para uma posição técnica na área.

Feliz e motivado, Rolando assume o cargo cheio de ideias. Imagina, entre outros sonhos, contribuir para a criação de Políticas Públicas de apoio ao Turismo brasileiro, estabelecimento de um Plano Diretor sustentado por metas objetivas, e fazer intercâmbios com países líderes nesta indústria, assim como entidades internacionais que estimulam o seu desenvolvimento.

 

É quando o coitado leva a primeira ducha de água gelada. Do nada, o governo escolhe um mandatário que entende tanto de Turismo quanto Boaventura conhece Física Quântica. No máximo, a experiência do novo dirigente estatal se restringe a uma ou duas viagens à Orlando em companhia da mulher, filhos e sogra. Por isto o novo chefe se acha graduado para alavancar o setor no Brasil graças a duas ou três ideias mágicas que traz no bolso. Como, por exemplo, estimular no Brasil a viagem de velhinhos aposentados. Ou criar um sistema de classificação oficial para a hotelaria nacional. Ou desenvolver um aeroporto em sua cidade natal que se transforme em um hub para a região. 

A cena se repete com previsibilidade assustadora. Depois deste Ministro, vem outro e a seguir outro, que vão embora seja por escândalo, perda de suporte político, ou inapetência funcional. Em comum, todos deixam um legado inútil de projetos que têm em comum três fatores. O primeiro é serem fruto do descolamento da realidade somado ao desperdício de recursos. O segundo é a ausência de um mínimo de pesquisa científica, ou junto ao empresariado, associações de classe, especialistas no assunto, e até ao seu próprio staff técnico. E terceiro, serem medidas imediatistas de impacto, que mesmo desprovidas de viabilidade, servem de trampolim para atingir futuros objetivos políticos.

Rolando Boaventura sabe que nada do proposto pelos mandatários de ocasião faz qualquer sentido e que não atende aos interesses prioritários do turismo. Ele se entristece ao ver que qualquer ilhota do Caribe dá banho no Brasil em atração de turistas, enquanto patinamos há décadas nos seis milhões de viajantes internacionais anuais. E o pior de tudo é conhecer bem a fórmula do sucesso, mas não ser jamais ouvido pelos superiores.   

Ele e seus colegas de infortúnio perdem esperança à medida em que cruzeiros abandonam águas brasileiras por falta de incentivo, infraestrutura precária dos portos, e impostos abusivos. Ou a aviação comercial voa para trás e se recolhe a patamares inferiores. Ou a cadeia econômica do setor fecha portas e empregos sumirem. E enquanto isto, ele observa investimentos em canoas furadas, com projetos físicos, conceituais ou editoriais inócuos.   

 Diante de emprego tão frustrante, resta ao profissional de Turismo do governo duas opções. Uma é pegar o boné e buscar outro lugar para trabalhar. Outra é se acomodar no melhor estilo “relaxa e goza”, proposto por sinal por uma autoridade que ocupou o Ministério há poucos anos. 

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